Por Maiana de Carvalho
Falo como mulher de direita, mas não como torcedora de arquibancada. Meu compromisso não é proteger Lula, Lulinha, Roberta Luchsinger ou qualquer outro personagem desse enredo. Meu compromisso é com a República, a prova e a velha, embora aparentemente exótica, ideia de que ninguém deveria transformar proximidade com o poder em plano de negócios.
A entrevista de Roberta à CNN Brasil não encerra o caso. Ela abre uma nova frente de pressão. Roberta afirmou que pretende buscar uma colaboração premiada, negou ter cometido crimes e declarou que não pouparia Lula nem Lulinha. Também afirmou que Lulinha teria se reunido diversas vezes com ministros. Essas são declarações da própria Roberta. Precisam ser investigadas, confrontadas e, sobretudo, corroboradas. Delação premiada não é certificado automático de verdade. É uma narrativa interessada que só ganha valor jurídico quando encontra provas independentes.
Mas seria intelectualmente desonesto tratar tudo como fofoca de internet. Há investigações formais. A Polícia Federal apura suspeitas de tráfico de influência envolvendo Roberta e Lulinha, examina mensagens apreendidas, relações com integrantes do governo, possíveis tratativas nas áreas de saúde e tecnologia e a circulação de demandas por agendas oficiais. Roberta foi alvo de medidas cautelares no contexto das investigações relacionadas à Operação Sem Desconto, que apura descontos associativos indevidos em benefícios do INSS. A PF também examina pagamentos de aproximadamente R$ 1,5 milhão feitos à consultoria de Roberta por empresa ligada a Antônio Carlos Camilo Antunes, o “Careca do INSS”.
Há ainda o núcleo de Marco Aurélio Santana Ribeiro, o “Marcola”, ex-chefe de gabinete da Presidência. Segundo reportagens, mensagens indicariam pedidos de agendas e atualizações sobre reuniões com autoridades. Valores recebidos por ele são apresentados pela defesa como pagamento de empréstimo pessoal. A versão existe. Agora precisa sobreviver aos documentos, aos fluxos financeiros e à lógica dos fatos.
E aqui entra o ponto psicológico mais interessante.
Quando uma crise política atinge determinado círculo de poder, costuma surgir uma disputa pelo controle da narrativa. A primeira estratégia é negar. A segunda é desqualificar o mensageiro. A terceira é sugerir que, se o mensageiro falar, muita gente terá de explicar o que antes parecia apenas amizade, favor ou coincidência. Isso não prova que Roberta esteja dizendo a verdade. Mas revela que a relação entre os envolvidos deixou de ser apenas pessoal e passou a funcionar como um sistema de pressão recíproca.
Roberta pode estar tentando se defender, aumentar seu poder de negociação ou antecipar uma possível responsabilização. Pode também estar revelando fatos relevantes. As duas hipóteses não são excludentes. Pessoas sob pressão raramente falam por uma única motivação. Podem misturar autopreservação, ressentimento, cálculo estratégico e informação verdadeira no mesmo pacote. É por isso que a investigação não pode ser conduzida por aplausos nem por insultos.
O que pode acontecer agora? Se Roberta apresentar elementos verificáveis, o caso poderá crescer para além do escândalo do INSS e atingir a cadeia de acesso, influência e proteção ao redor do poder. Se não apresentar nada além de acusações, sua credibilidade será severamente atingida. Em qualquer cenário, mensagens, agendas, contratos e movimentações financeiras falarão mais alto do que entrevistas.
O presidente Lula afirmou que seu filho deve responder como qualquer cidadão. Muito bem. Esse é o princípio. Agora falta saber se ele continuará vigoroso quando a investigação chegar à sala de visitas do poder.
Porque a República não é um grupo de WhatsApp. Não é uma rede de favores. Não é uma agenda privada com carimbo público. E, se houver prova de que amizades foram convertidas em influência, influência em contratos e contratos em dinheiro, o circo não apenas vai pegar fogo: será necessário identificar quem acendeu o fósforo, quem forneceu o combustível e quem estava cobrando ingresso.
Sem condenação antecipada. Sem blindagem partidária. Sem teatro moral.
Proximidade não é crime. Mas, quando envolve ministros, milhões, agendas e negócios, perguntar deixa de ser perseguição. Passa a ser obrigação republicana.

