Na disputa entre Lula e Flávio Bolsonaro, pesquisas sobre os eleitores de Augusto Cury, Ronaldo Caiado e Renan Santos expõem os limites da tutela partidária e a autonomia do cidadão.
Resumo
A pesquisa Ipespe/Abrapel sugere que apoios formais não transferem votos como quem transfere uma propriedade. Os eleitores dos candidatos derrotados fazem cálculos próprios, combinando afinidade, rejeição, estratégia, protesto e, em muitos casos, a recusa de escolher qualquer finalista.
A ilusão do proprietário de votos
Há uma velha tentação na política: imaginar que o voto pertence a alguém. Ao candidato derrotado, ao partido, ao padrinho, ao governador, ao líder que sobe a uma tribuna e anuncia seu apoio com a solenidade de quem entrega as chaves de um imóvel. A cena é teatralmente eficiente. O problema é que o eleitor não mora nesse imóvel.
Voto não é patrimônio privado. Não vem com escritura, não aceita endosso e não obedece à lógica das procurações coletivas. Um dirigente pode declarar sua escolha, orientar sua militância e negociar espaços de governabilidade. O que não pode fazer, embora muitos insistam em tentar, é transportar milhões de consciências em uma carreata retórica.
Os números divulgados em 17 de outubro de 2026 pela Ipespe/Abrapel recolocam essa questão no centro do debate. Eles não oferecem uma profecia sobre o resultado. Oferecem algo mais incômodo: um retrato das escolhas declaradas por grupos que a política costuma tratar como blocos obedientes.
Minha leitura é institucional. A democracia funciona melhor quando lideranças compreendem que influência não é propriedade, apoio não é transferência automática e eleitor não é extensão administrativa de uma candidatura.
A política anuncia; o eleitor decide
O relatório original “Tracking da Campanha – 2ª rodada”, divulgado em 17 de outubro de 2026 e registrado no Tribunal Superior Eleitoral sob o número BR-00223/2026, foi realizado por telefone, pelo método CATI, entre 13 e 15 de outubro. Foram 1.500 entrevistas nacionais, com margem de erro de ±2,6 pontos percentuais, nível de confiança de 95,45% e recursos próprios.
Na intenção estimulada nacional, Flávio aparece com 48%, Lula com 46%, branco/nulo com 3% e não sabe/não respondeu com 3%. O relatório também publicou um exercício em votos válidos: 51,2% para Flávio e 48,8% para Lula. A própria pesquisa ressalva que indecisos não necessariamente se distribuirão como os eleitores decididos.
O cruzamento abaixo trata de intenções declaradas entre subgrupos, a partir do voto recordado no primeiro turno. Não são votos efetivamente depositados.
Augusto Cury: Flávio 50%; Lula 31%; branco/nulo 3%; NS/NR 17%.
Ronaldo Caiado: Flávio 59%; Lula 18%; branco/nulo 6%; NS/NR 18%.
Renan Santos: Flávio 40%; Lula 20%; branco/nulo 32%; NS/NR 8%.
Branco/nulo/não votou: Flávio 15%; Lula 60%; branco/nulo 13%; NS/NR 12%.
Eventuais somas podem não fechar exatamente em 100% por arredondamento ou pela forma de apresentação. Branco/nulo é uma resposta substantiva sobre a escolha eleitoral; não sabe/não respondeu registra incerteza, recusa ou ausência de resposta. Nenhuma dessas categorias equivale automaticamente à abstenção efetiva.
O eleitor de Augusto Cury aparece inclinado a Flávio, mas com 17% em NS/NR. Entre os eleitores de Caiado, a vantagem de Flávio é mais larga, embora também conviva com 18% de NS/NR. Já o grupo de Renan apresenta uma margem expressiva de branco/nulo, sinal de que sua relação com o segundo turno pode ser menos uma transferência e mais uma decisão de não aderir.
É uma diferença importante. O eleitor de um candidato derrotado não é uma massa única: pode ter votado por identidade, circunstância, protesto ou conveniência. Quando a urna oferece apenas dois nomes, cada motivação precisa ser refeita.
O eleitor de Caiado e a lógica da afinidade política
No grupo que declarou ter votado em Ronaldo Caiado, a Ipespe/Abrapel encontrou 59% para Flávio, 18% para Lula, 6% para branco/nulo e 18% em NS/NR. Outros levantamentos chegaram a proporções diferentes, mas apontaram na mesma direção: a vantagem de Flávio aparece como um padrão, não como uma singularidade isolada.
Na Quaest, a divisão foi de 42% para Flávio contra 23% para Lula. Na Palver, 61% contra 35%. No PoderData/Aya, 50% contra 30%. A intensidade varia bastante; a direção, contudo, permanece consistente nos quatro levantamentos comparáveis.
Uma hipótese plausível é que parte desse eleitorado reconheça em Flávio maior proximidade percebida em temas como segurança, liberdade econômica, responsabilidade fiscal ou uma agenda de limitação do poder estatal. Outra hipótese é o voto negativo: não necessariamente uma adesão entusiasmada ao finalista, mas a rejeição de Lula como alternativa.
Também pode haver pragmatismo. Alguns eleitores escolhem o candidato que imaginam mais capaz de formar maioria, reduzir incertezas ou preservar previsibilidade regulatória. Outros podem considerar a governabilidade um valor, desde que submetida a freios e contrapesos. Nenhuma dessas explicações, entretanto, foi comprovada individualmente pela tabela.
É preciso resistir à caricatura. A vantagem de Flávio entre eleitores de Caiado não autoriza concluir que todos compartilham a mesma ideologia, nem que seguirão essa intenção até o dia da votação. Pesquisas medem declarações em um momento; não registram contratos de fidelidade.
Na política real, a afinidade orienta, a rejeição empurra, o cálculo organiza e a urna decide. Confundir esses verbos é o primeiro passo para transformar análise em torcida.
Augusto Cury e o desconforto dos números
O eleitorado de Augusto Cury é o recorte mais divergente entre os institutos. A Ipespe/Abrapel e o PoderData/Aya apontam vantagem de Flávio. A Quaest mostra vantagem numérica de Lula, dentro de um quadro sujeito à margem de erro. A Palver registra vantagem ampla de Lula. O Datafolha não divulgou Cury isoladamente, o que impede uma comparação direta.
Ipespe/Abrapel — 17/10/2026: 13–15/10; 1.500; telefone CATI; ±2,6 pp; BR-00223/2026; Flávio 50%; Lula 31%; branco/nulo 3%; NS/NR 17%.
Quaest — 14/10/2026: 10–13/10; 2.154; presencial; ±2 pp; BR-08729/2026; Lula 34%; Flávio 30%; branco/nulo/não votar 30%; indecisos 6%.
Datafolha — 15/10/2026: 13–14/10; 2.520; presencial; ±2 pp; BR-00466/2026; Não publicou Cury isoladamente; no grupo Cury + Renan + Caiado + Zema: 23% branco/nulo e 5% indecisos.
Palver — 15/10/2026: 10–13/10; 5.000; online; ±2,3 pp; BR-08028/2026; Lula 64%; Flávio 32%; branco/nulo/não votar 2%; indecisos 2%.
PoderData/Aya — 16/10/2026: 13–15/10; 3.000; telefone; ±1,8 pp; BR-04258/2026; Flávio 47%; Lula 36%; branco/nulo 13%; NS/NR 5%.
O agregado do Datafolha não pode ser usado como equivalente direto ao recorte de Cury. Ele reúne quatro eleitorados distintos, com tamanhos e características próprias. Somar grupos diferentes pode ser útil para uma leitura ampla, mas não autoriza atribuir o resultado ao eleitor de um único candidato.
O que explica a distância? Há hipóteses, não veredictos. O método presencial pode alcançar pessoas diferentes do telefone ou da internet. A composição das amostras, o tamanho efetivo do subgrupo, o momento da coleta, a formulação das perguntas e a maneira de recordar o voto podem alterar as respostas. Também pesa a forma de agregar branco, nulo, não votar e indecisos.
Outra possibilidade é a volatilidade. O eleitor pode ter votado em Cury por uma razão que não se conserva no segundo turno. Voto recordado tampouco é sinônimo perfeito de identidade política: a memória seleciona, simplifica e às vezes reorganiza a própria biografia eleitoral.
Não é possível escolher arbitrariamente o número mais conveniente e chamá-lo de realidade. O dado responsável é justamente a divergência. Ela recomenda cautela e indica que o grupo de Cury está aberto a interpretações concorrentes, não disponível para uma narrativa única.
Renan Santos e o voto que não quer ser domesticado
Entre os eleitores que disseram ter votado em Renan Santos no primeiro turno, a Ipespe/Abrapel registrou 40% para Flávio, 20% para Lula, 32% para branco/nulo e 8% em NS/NR. A Quaest encontrou 43% em branco/nulo/não votar, enquanto o PoderData/Aya registrou 24% em branco/nulo.
O primeiro dado relevante não é quem lidera. É o tamanho da recusa. Quando quase um terço de um subgrupo declara branco ou nulo, a política deveria ouvir antes de comemorar. O eleitor pode considerar que nenhum finalista representa sua preferência, pode desejar protestar, pode estar desiludido, pode agir por coerência ou simplesmente ainda não ter decidido.
Essas motivações não são intercambiáveis. Branco e nulo não significam exatamente a mesma coisa, embora ambos não escolham um candidato. “Não votar” em uma pergunta de pesquisa também não é equivalente à abstenção medida pela Justiça Eleitoral. E NS/NR descreve uma resposta ausente ou indefinida, não uma decisão consolidada.
A parcela que prefere Flávio pode estar fazendo um cálculo de afinidade, rejeição ou estratégia. A que prefere Lula pode estar priorizando a derrota do adversário, uma identificação programática ou outra consideração que o levantamento não detalha. O cuidado analítico consiste em não psicologizar nenhum desses grupos sem evidência.
O eleitor de Renan, portanto, não aparece como um espólio esperando destino. Aparece como uma população de escolhas incompletamente conhecidas. A liderança pode tentar convencê-la; não pode narrar sua consciência por antecipação.
O segundo turno como teste de maturidade política
O segundo turno simplifica a cédula, mas não simplifica o eleitor. Duas candidaturas podem condensar projetos distintos de Estado, economia e vida pública, sem eliminar as dúvidas que levaram alguém a votar em um terceiro nome. É nesse intervalo que o apoio formal de uma liderança encontra seu limite democrático.
Uma perspectiva de direita institucional não precisa tratar política como devoção pessoal. Pode defender responsabilidade fiscal, liberdade econômica, segurança jurídica, eficiência administrativa e previsibilidade sem transformar qualquer candidato em proprietário desses valores. Também deve reconhecer que governabilidade não é licença para atropelar freios e contrapesos, nem para relativizar os limites constitucionais do poder.
Alianças são legítimas. Negociar governabilidade, recomendar uma escolha e apresentar razões públicas fazem parte da competição democrática. O problema começa quando a negociação interna é vendida como transferência automática de milhões de votos. A política cria atas; o eleitor cria consequências.
Uma distinção essencial
Apoio formal é uma decisão da liderança. Preferência eleitoral é uma decisão individual. Entre as duas existe influência, mas não existe identidade necessária.
O líder pode oferecer uma interpretação do momento, organizar argumentos e reduzir incertezas. Pode inclusive errar. O eleitor, por sua vez, pode aceitar a recomendação, adaptá-la às próprias prioridades ou rejeitá-la silenciosamente, sem dever explicações ao dirigente que antes pediu seu voto.
É justamente essa autonomia que torna a democracia menos elegante para os negociadores e mais saudável para as instituições. Um partido disciplinado pode ser útil; uma sociedade completamente domesticada seria apenas administrável. E sociedades administráveis demais costumam descobrir tarde o preço da obediência sem exame.
Pesquisas diferentes não são necessariamente pesquisas inúteis
Há uma diferença entre uma pesquisa nacional de intenção de voto e um recorte específico do eleitorado de um candidato derrotado. A primeira trabalha com o conjunto da amostra. A segunda depende do número e do perfil de pessoas que disseram ter votado naquele candidato. Quanto menor ou mais heterogêneo o subgrupo, maior a necessidade de prudência na leitura.
Margem de erro não é um selo de exatidão, tampouco uma autorização para escolher o resultado preferido. Ela expressa uma incerteza amostral sob determinadas condições. O período de coleta também importa: uma declaração feita entre 10 e 13 de outubro pode não capturar o mesmo estado de espírito de outra registrada entre 13 e 15 de outubro.
Método presencial, telefônico e online alcança públicos por caminhos diferentes. A formulação da pergunta pode separar ou combinar branco, nulo, não votar, indecisão e não resposta. Uma tabela que reúne “branco/nulo/não votar” não é automaticamente comparável a outra que distingue branco/nulo de NS/NR.
O próprio relatório Ipespe/Abrapel oferece uma advertência importante sobre comparecimento. Nele, 89% declararam chance máxima, nota 10, de ir votar. Nesse subconjunto, Flávio aparece com 50%, Lula com 46%, branco/nulo com 2% e NS/NR com 2%; nos votos válidos, o exercício chega a 52,2% contra 47,8%. O relatório alerta que pesquisas não captam o potencial real de abstenção.
Essa ressalva vale para todas as fotografias. O levantamento indica o que pessoas responderam em uma situação de entrevista. Não mede diretamente o que farão diante da urna, nem transforma uma categoria de resposta em comportamento eleitoral consumado.
As pesquisas continuam úteis quando lidas como instrumentos de investigação, não como oráculos. A divergência sobre Cury pode ser desconfortável, mas revela uma realidade importante: há eleitores cujo comportamento ainda não cabe em uma narrativa pronta.
Votos não são procurações em branco
Os dados disponíveis sugerem uma conclusão sóbria. O eleitorado de Caiado parece mais inclinado a Flávio, mas essa inclinação não elimina a margem de dúvida. O grupo de Cury permanece marcado por divergências expressivas entre os institutos. O de Renan revela peso considerável de branco, nulo, não votar ou respostas indefinidas. Em todos os casos, a transferência automática é uma ficção conveniente para quem precisa anunciar vitória antes de enfrentar a urna.
Também não há base para transformar qualquer uma dessas pesquisas em previsão definitiva. São intenções declaradas, obtidas em períodos específicos, com métodos, amostras e categorias diferentes. O segundo turno ainda pode alterar preferências, ampliar rejeições, produzir voto estratégico ou levar parte do eleitorado a simplesmente não escolher nenhum dos finalistas.
Minha conclusão é menos espetacular e mais democrática: lideranças importam, mas não substituem a consciência individual. Apoios podem orientar; partidos podem negociar; candidatos podem argumentar. Nada disso converte o cidadão em patrimônio eleitoral de terceiros.
O amadurecimento político começa quando dirigentes deixam de perguntar quantos votos “possuem” e passam a perguntar quais razões ainda precisam apresentar. A urna não reconhece heranças políticas sem inventário, nem aceita procurações assinadas depois do fato.
Para guardar
O líder pode declarar o próprio voto, mas não pode assinar uma procuração em nome de cada eleitor.
Voto não é herança, pacote ou propriedade de campanha. É uma decisão pessoal submetida à responsabilidade pública, e essa autonomia é precisamente o que impede a política de virar cartório de vontades alheias.
Fontes consultadas
Relatório original Ipespe/Abrapel — “Tracking da Campanha – 2ª rodada”
Pesquisa nacional registrada no TSE sob BR-00223/2026, realizada por telefone pelo método CATI, com 1.500 entrevistas entre 13 e 15 de outubro de 2026. O relatório apresenta a intenção de voto no segundo turno, os cruzamentos por voto recordado no primeiro turno e a ressalva sobre o exercício em votos válidos e o comparecimento.
Acessar o relatório original Ipespe/Abrapel
Comparação jornalística dos levantamentos e destino dos votos
Material com dados comparativos publicados sobre Ipespe/Abrapel, Quaest, Datafolha, Palver e PoderData/Aya, incluindo recortes sobre os eleitores de Cury, Caiado e Renan.
Ler a comparação jornalística dos levantamentos
Quaest, Datafolha, Palver e PoderData/Aya foram citados neste artigo apenas com as datas, metodologias, margens de erro, registros no TSE e resultados fornecidos no material de referência. Não foram incluídos links diretos não verificados para publicações específicas desses institutos.

